segunda-feira, 2 de julho de 2012

Doce Mistério



O maior legado do Cristianismo incontroversamente se encontra nos feriados trazidos por si. Em contrapartida, além das guerras, conflitos e descaracterização de culturas, meu maior ressentimento se encontra no fato de terem estragado os domingos. Não que eu tenha vivido algum domingo A.C., mas tem muito relato por aí dizendo que o ”baalbado” era forte.

Indo de encontro ao terceiro mandamento papal, não guardei meu domingo, até mesmo por não saber onde colocá-lo, e fiando-me em Êxodo e nos adventistas que dão moral pro sábado (no sábado eu me abraço ao mandamento papal), fui enxugar umas garrafas no brega mais próximo.

Acomodado em meu assento de plástico (o fim das mesas de ferro em bares e boites diminuiu o índice de traumatismos cranianos, bem como trouxe de volta os renegados boêmios flagelados pelas hemorroidas, porém tirou todo o romantismo do abrir e fechar de mesas e cadeiras rangentes) como bom voyeur me detive em uma jovem gorducha, seminua, de olhar doce e tolo que percorria as mesas buscando encantar os indiferentes colegas de embriaguez dominical.

Não demorou para que a situação me lançasse em elucubrações sobre a decadência humana, a brevitude da existência, memento mori e as frescuras do renascimento. Eis que no som ambiente passa a tocar uma sutil introdução que me trouxe reminiscências longínquas. Doce e tola como a feição da jovem, uma flautinha anunciava que vinha trilha sonora de dor de cotovelo por aí, a voz chorosa de Leonardo veio e confirmou:


Doce Mistério

Eu não sei de onde vem
Esse amor que chega e domina
Viva luz a brilhar
Nesse olhar que o meu ilumina
Vou flutuando na paixão
Não, não sei onde vou chegar
Quem será essa ilusão
Que eu vivo a buscar
Diz pra mim se é você
Esse alguém que eu tanto quero
Eu preciso descobrir
Se é você meu doce mistério de amor
Vou flutuando na paixão
Não, não sei onde vou chegar
Quem será essa ilusão
Que eu vivo a buscar
Diz pra mim se é você
Esse alguém que eu tanto quero
Eu preciso descobrir
Se é você meu doce mistério
O que eu quero é viver você
Quero sorrir o seu sorriso
Quero pensar os pensamentos seus
Você é tudo que eu preciso
Diz pra mim se é você
Esse alguém que eu tanto quero
Eu preciso descobrir
Se é você meu doce mistério
Diz pra mim se é você
Esse alguém que eu tanto quero
Eu preciso descobrir
Se é você meu doce mistério
Diz pra mim se é você
Esse alguém que eu tanto quero
Eu preciso descobrir
Se é você meu doce mistério




Deu vontade de chorar. Leandro e Leonardo estão presentes em minhas inconfessáveis memórias de infância quando eu cantava a plenos pulmões “tira essa roupa molhada, quero ser a toalha e o seu cobertor!”.

O triste fim do dono da segunda voz da dupla, detalhadamente explorado pela mídia, o inconteste sentimentalismo carregado na voz de Leonardo, a jovem ignóbil, o brega, o domingo não guardado, as sagradas escrituras, o doce mistério, tudo reunido, me levou para um estado de espírito nostálgico e melancólico e me fez recordar de uma paixão esquecida.

A canção fez parte da trilha sonora da novela "O Rei do Gado", sendo tema da Lia Mezenga (Lavínia Vlasak em sua primeira novela) e Pirilampo (Almir Sater).

Lavínia Vlasak de chapéu, camisa xadrez, minissaia e botinha destroçava meu jovem coração.



Além da introduçãozinha meiga, não falta o solo de guitarra apoteótico. A letra concomitantemente versa sobre um amor puro, impessoal, como também narra um desejo de ver o amor correspondido.

O eu-lírico descreve um sentimento de origem ignorada, que o perpassa e o conduz vida adiante, vindo a questionar ao interlocutor (a) se neste (a) encontrará a correspondência tão buscada.

Torna-se impossível não pensar no amour courtois medieval, no qual o amante (idealizador) aceita a independência de sua amada e tenta fazer de si próprio merecedor dela, agindo de forma corajosa e honrada (nobre) e fazendo quaisquer feitos que ela deseje.

Atenção, os trechos a seguir não passam de informação complementar inútil extraída do Wikipédia. Passe para a conclusão:


“Amor Cortês foi um conceito europeu medieval de atitudes, mitos e etiqueta para enaltecer o amor, e que gerou vários gêneros de literatura medieval, incluindo o romance. Ele surgiu nas cortes ducais e principescas das regiões onde hoje se situa a França meridional, em fins do século XI, e que se propagou nas várias que enalteciam o "Ideal cavaleiresco". Em sua essência, o amor cortês era uma experiência contraditória entre o desejo erótico e a realização espiritual, "um amor ao mesmo tempo ilícito e moralmente elevado, passional e auto-disciplinado, humilhante e exaltante, humano e transcendente".

Principais pontos

A teoria do amor cortês pressupõe uma concepção platónica e mística do amor, que pode ser resumida nos pontos abaixo:

Total submissão do enamorado à sua dama;

A amada é sempre distante, admirável e um compêndio de perfeições físicas e morais;

Os enamorados são sempre de condição aristocrática;

O enamorado pode chegar a comunicar-se com a sua inatingível senhora, após uma progressão de estados que vão desde o suplicante ("fenhedor", em occitano) ao amante ("drut");

Trata-se, frequentemente, de um amor adúltero. Por isso, o poeta oculta o objeto de seu amor substituindo o nome da amada por uma palavra-chave ("senhal") ou pseudónimo poético.
"

http://pt.wikipedia.org/wiki/Amor_cort%C3%AAs


Eis a vida, assim vamos seguindo adiante, saboreando esse doce mistério.

2 comentários:

  1. Caro autor, quero parabenizá-lo pela galhardia de vosso trabalho e, na oportunidade, expor dúvida que considero assaz pertinente: o seu aro está aberto a penetrações em geral? Vale dizer, caso nós, humildes leitores, queiramos ver determinada obra analisada com profundidade no seu aro, temos a liberdade de sugeri-la a vosso perspicaz veredicto com alguma possibilidade de lograr êxito? Creio tratar-se de questão de indubitável importância, haja vista que cotidianamente nos deparamos com novíssimas composições repletas de eruditismo, as quais nem sempre somos capazes de compreender mediante nossos próprios esforços. Sem contar as vezes em que somos apresentados a produções clássicas e não detemos, sem o seu aro, o grau de imparcialidade necessário para examiná-las isentos das idiossincrasias da sociedade pós-moderna, correndo, assim, o risco de proceder a averiguações anacrônicas. Ademais, acredito que essa via de mão dupla no seu aro torná-lo-á cada vez mais expandido e trará benefícios a todos, na medida em que o seu aro será contumazmente invadido pelas hodiernas e antigas tendências musicais, bem como se tornará, a cada dia, mais nosso, o que propiciará enorme deleite a seus apreciadores, afinal, sejamos sinceros, quem não quer um aro para chamar de seu? De qualquer forma, quero expressar meus agradecimentos pelo espaço tão gentilmente cedido a nossos comentários e colocações.

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