quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Ai se eu pego seu aro



Preclaros Leitores,

O meu, o seu, o nosso aro chegou em 2012!

De fato, 2011 foi um ano morgado, quase que nosso espaço chegou ao fim, mas voltamos "de com força".

Para estrear esse ano apocalíptico teremos que nos curvar ao fenômeno recente da MPB, Michel Teló e tentar descobrir a raiz de tal febre.

Em primeiro lugar, tal gênio não surgiu por acaso. Teló já estourara a paciência e as rádios de todo o Brasil com o já clássico: "Fugidinha".

Evidentemente, fora da oralidade necessária para compreensão da música (caso você ainda não tenha percebida "fugidinha" pode ser confundível com "fudidinha") perdemos muito do talento do intérprete paranaense.

De toda sorte, Teló apostou em uma temática clássica, quinhentista, que para muitos jamais teria a capacidade de atingir o gosto popular, contudo logrou êxito.

Ao longo da canção "Fugidinha" percebemos nítida influência de temas comuns ao arcadismo e suas caraterísticas essenciais: bucolismo, escapismo etc.


Dirceu sempre quis dar uma fugidinha com Marília

"Tô bem na parada
Ninguém consegue entender
Chego na balada
Todos param pra me ver
Tudo dando certo
Mas eu tô esperto
Não posso botar tudo a perder"


Da construção poética de Teló a primeira coisa que salta aos olhos é a necessidade do eu-lírico se firmar como detentor das rédeas da situação, recebendo a atenção dos que estão em sua volta.

Assim, custe o que custar, a ideia de domínio e de controle é deflagrada, sem a compreensão dos que o cercam.

Todavia, o que parece ser a ordem natural das coisas logo é abalada pela densa presença do objeto amado, que reverte conscienciosamente a situação de estabilidade do eu-lírico, senão vejamos:


"Sempre tem aquela
Pessoa especial
Que fica na dela
Sabe seu potencial
E mexe comigo
Isso é um perigo
Logo agora que eu fiquei legal"

Pronto, o equilíbrio do sujeito vorazmente vai à bancarrota diante da potência do objeto, que lança a ameaça em iminência de se cumprir...

"Tô morrendo de vontade de te agarrar
Não sei quanto tempo mais vou suportar
Mas pra gente se encontrar
Ninguém pode saber
já pensei e sei o que devo fazer
O jeito é dar uma fugidinha com você
O jeito é dar uma fugida com você
Se você quer
Saber o que vai acontecer
Primeiro a gente foge
Depois a gente vê".

Enfim, o desejo se sobrepõe à necessidade de domínio, contudo, o eu-lírico ressalta a necessidade de segredo como condição sine qua non para o desdobramento da relação amorosa.

Desse modo, emerge a ideia de fuga, o escapismo diante da realidade opressora, que tão bem foi descrito nos versos do também poeta Tomás Antônio Gonzaga, no também clássico "Marília de Dirceu".

Recentemente, a canção "Ai se eu te pego", voltou a lançar Michel Teló no rol dos grandes intérpretes de nossa geração.

Saboreie:

"Nossa, nossa
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego...

Delícia, delícia
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego..."

Ab initio, percebam a ênfase do eu-lírico em relação ao espanto diante do que ainda não restou explicado: "nossa, nossa", sobrevindo um alerta quanto ao abrupto risco de morte, "assim você me mata".

Na segunda estrofe, a ênfase na ideia de sabor nos esclarece que o mesmo objeto de espanto também provoca desejo, passando o "ai se eu te pego" a nos informar que esse desejo anunciado ainda não se consumou.

Prossegue a canção:

"Sábado na balada
A galera começou a dançar
E passou a menina mais linda
Tomei coragem e comecei a falar"

Novamente, o eu-lírico descreve a balada como espaço de atuação dos agentes descritos na obra, sendo que, mais uma vez, o sujeito se depara com a atormentadora presença da figura feminina, que logo se destaca das demais em razão de sua beleza.


Garota de Ipanema - Teló liga o contemporâneo ao clássico

Vejam que a "menina mais linda" está "passando", tratando-se de deliberada referência ao clássico da música brasileira "Garota de Ipanema".

Em ambas as canções, a bela figura feminina é descrita em uma condição chave: o passeio perante a visão do eu-lírico embasbacado.

Alguns teóricos nesse ponto mencionam eventual influência de Charles Baudelaire, em seu poema, "a une passante":

"La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;
Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.
Un éclair... puis la nuit! — Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?
Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!"



Entretanto, humildemente, discordo destas vozes, porquanto o desfecho da canção de Teló lança-o em condição diametralmente oposta ao eu-lírico do poema francês, senão vejamos:


"Tomei coragem e comecei a falar
Nossa, nossa
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego
Delícia, delícia
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego"


Baudelaire não foi macho pra dizer "Delícia, assim você me mata"...

Dessa feita, enquanto o poeta maldito se restringe a cantar o jamais vivido, o nunca realizado, bebericando do néctar do tédio e da atmosfera de não concretização, Teló toma forças para exteriorizar, sem maiores pudores, tudo aquilo que o assomou quando da visão do objeto amado.


Finalmente, destaquemos a ameaça final, nunca confirmada, encerrando-se o poema com esta sugestão de possibilidade.

4 comentários:

  1. "Michel Teló muito mais macho que Baudelaire" HAHAHA
    Realmente,mas Nierine, eu diria que há um anacronismo na sua afirmação. Há de ser levado em consideração o contexto desses dois poemas, mestre sem dúvida, mas cada um em respectivo tempo. Concordo que a figura da passante está presente nos dois poemas, e inclusive na "garota de ipanema", na qual podemos identificar uma estrutura de longa duração. No entanto, a passante de Baudelaire é provavelmente uma "coquette" do século XIX. Ora, segundo Simmel, a coquetteria é uma "promessa que não se cumpre", em português claro,a coquette "não foge(hehe) nem sai de cima". Reconhecendo nela uma coquette, e sendo ele mesmo um "flanêur", se contenta com esse amor platonico, somente visual e nunca tátil. No contexto de Teló, a balada, a situação é diversa.A passante, apesar de conhecedora das artes da coquetteria como toda mulher, não é uma coquette, e Teló o sabe, afinal de contas, o que ela estaria ali fazendo senão esperando ser pega? Teló também não foi só pra olhar. É no entendimento de Benjamin, um colecionador, que prilegia o ter ao invés do ser, portanto, tátil. "Ai se eu te pego". Enfim, questão de contexto!
    Rodrigo Pollari

    ResponderExcluir
  2. Hahahahaha. Muito bem pensando meu caro Rodrigo. Como eu havia dito, apenas fiz questão de pontuar a opinião de alguns especialistas que vinculam Teló à enfant terrible Baudelaire, bem como toda comparação tem o risco inarredável de cair em certo anacrônismo. Se Walter Benjamim estivesse vivo creio que teria o mesmo a dizer sobre o assunto. Todavia, apenas não seria capaz de indicar como diferencial marcante de ambos os contextos o espaço e o objeto, como predispostos a levarem o eu-lírico Teló a agir. Do mesmo modo, seria imprudente afirmar que Teló estaria lá "pra pegar". Veja que, de algum modo, ele se regozija somente com a ideia do que faria se pegasse...

    ResponderExcluir
  3. Não havia levado em conta o regozijo nas considerações anteriormente levantadas. A dúvida, ao meu ver, reside no "ai". Afinal de contas, o "ai" denota o prazer sentido antes, ou mesmo sem a concretização do ato, "eu te pego", ou constitui promessa de algo melhor, de forma que o "ai"(prazer) está condicionado pela particula "se" ao ato ("eu te pego").
    Percebemos aí a engenharia poética do texto de Teló, através de ambiguidades textuais, coloca o leitor em um dilema e confusão. Afinal de contas o regozijo/perigo é atual, ou eminente, ou os dois?

    ResponderExcluir
  4. Caro Rodrigo, não se sinta acanhada por ter inobservado, prefacialmente, deteroinado elemento peculiar e necessário para a análise do tema. A poética Teloniana de fato é complexa e creio, como um dia disse Nietzsche sobre si, ainda haverão escolas para estudar Michel Teló. Noutro giro, nós felizardos contemporâneos desse gênio, não possuimos o distanciamento fundamental para interpretação da obra. Concordo com você em gênero, número e grau sobre a dúvida residir no "ai". Vale lembrar a semântica onomatopeica atrelada à particula, que expressa dor, dor física. "Se" sempre é possibilidade. Terrível atrelar partícula tão concretizada em face de evento não realizado! Acho, finalmente, que a ambivalência da expressão era a intenção poética...

    ResponderExcluir