terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Atoladinha no seu Aro



Luculentos Leitores,

O meu, o seu, o nosso aro realizará uma análise musical de há muito requerida através de cartas, torpedos e pedradas de baladeira.

Em primeiro lugar, devemos explicar que se em um momento inicial parecemos não dar a devida atenção ao fenômeno, em verdade buscamos o distanciamento necessário para tentarmos entender esta expressão cultural de tamanha magnitude, bem como suas influências mais definitivas no cenário geopolítico.

Sem mais delongas, estamos tratando de nada mais nada menos do que o já clássico de presença imprescindível em nossos vestibulares: "Atoladinha", de autoria atribuída ao gênio MC Sandrinho.

Não esperem soluções definitivas para questões ainda muito controversas, as quais necessitam de anos de estudo e análise mais aprofundada por diversos campos da ciência.

Assim entendam as mal alinhavadas linhas que seguem como uma humilde contribuição para a compreensão geral desta obra de arte.

Logo quando de seu estouro nas rádios do Brasil, alguns pensadores atabalhoados saíram de plano bradando ao mundo as impossibilidades e caminhos sem volta na música decorrentes dos paradigmas quebrados por Bola de Fogo. Alguns em exortação precoce anunciaram até o fim da possibilidade de se compor.

Tom Zé apolipticamente sentenciou: "um metarrefrão microtonal e polissemiótico"...

Tenho minhas dúvidas, eis a letra:


Atoladinha
Bola de Fogo

Alô?
Qual é foguenta?
Quem tá falando?
Sou eu Bola De Fogo...e aê tá de bobeira hoje?
Tô...
Vamu dá um rolé na praia, mó solzão praia da Barra...
Já é..
Então vou ai ti buscar,valeu?
Valeu...
Então...Fui!!!


Vemos na primeira estrofe o diálogo entre Bola de Fogo e Foguenta.
O contexto da troca de informes entre os interlocutores nos sugere tratar-se de uma ligação telefônica efetuada por Bola de Fogo, indicando-se uma atuação no futuro: o encontro de ambos para o rolé na praia da Barra.

Contudo, a narrativa é abruptamente deslocada para outro plano, assim enunciado:

"Piririn, piririn, piririn
Alguém ligou pra mim
Quem é?
Sou eu Bola de Fogo
E o calor ta de matar
Vai ser na praia da Barra
Que uma moda eu vou lançar"


O primeiro verso já contém a onomatopeia "piririm", que traduz o som de um telefone tocando, o que remete ao diálogo anterior.

Vejam que em tempos de ipad, iphone, smartphone e toques em mp3, ao narrador para traduzir o ato de um telefone tocando torna-se necessário remeter o ouvinte para o clássico toque dos telefones antigos.

Seria uma ironia sobre o fato da tecnologia, apesar de todas as revoluções e impactos que causou, ser incapaz de alterar certas formas clássicas de expressão e transmissão de ideias?

Enfim, o certo é que curiosamente, após o "piririm", uma voz feminina, ficando subentendido que seja Foguenta, afirma: "Alguém ligou pra mim"...

Novamente o poeta nos lança em um impasse. Enquanto o "piririm" traduz uma ação simultânea à narrativa, deixando ao alvedrio do ouvinte a interpretação se na verdade é uma nova ligação de Bola de Fogo ou a ligação descrita anteriormente agora sob a perspectiva de Foguenta, o verbo ligar estando no passado, por óbvio, nos remete para um evento passado.

No verso seguinte temos o "quem é?", transcrição de um diálogo no presente e no qual Bola de Fogo se reapresenta, se queixa do calor e faz alusão à eventual moda que irá lançar na Praia da Barra.

Quanto a tais informes, em seguida advém a retorsão de Foguenta que busca adivinhar a moda a ser lançada, senão vejamos:

"Vai me enterrar na areia?
Não, não vou atolar
Vai me enterrar na areia?
Não, não vou atolar"


Vejam a veemência de Bola de Fogo, manifestando sua expressa recusa à possibilidade de enterrar Foguenta na areia, declarando claramente que irá atolá-la.

Logo em seguida, o plano temporal, mais uma vez, se desloca:

"To ficando atoladinha
To ficando atoladinha
To ficando atoladinha
calma,calma foguentinha"


Assim, ao final, a canção se encerra com a declaração apreensiva de Foguenta e as palavras apaziguadoras de Bola de Fogo.

Deveras o deslocamento de planos temporais e vozes narrativas não é nenhum novidade na seara literária, havendo toda uma teoria quanto ao assunto e que não nos cabe detalhar com maior profundidade.

O significativo é o emprego de tais recursos em uma aparentemente simplória canção que pode ser considerada atordoante, porquanto oferece mínimas ferramentas de compreensão ao ouvinte e, em ato contínuo, o tira do lugar comum e do conforto da representação solidificada.

O atolamento é semântico, representativo, pós-moderno,estamos todos atoladinhos...

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